Blogs em Destaque: Armazém de Cultura

Armazém de Cultura nasceu de pequenas insatisfações. É assim que começa a apresentação do blog em destaque dessa semana.

Nele Meiri Farias, Beatriz Farias e Talita Guimarães falam sobre HQ, Música, Literatura, Cinema e Jornalismo de uma ótica que foge do padrão de mercado. Preocupadas com a reflexão e  sem medo de se aprofundar nos mais diversos assuntos elas criaram um produto cultural atraente e de leitura muito agradável.

Abaixo compartilho com vocês a entrevista que fizemos por e-mail onde elas contam um pouco mais da história do blog e das decisões de produzir conteúdo com um estilo diferente.

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Qual é a história por trás do blog?

Meiri: Quando o blog começou, era um projeto muito pessoal, muito focado em preencher lacunas na produção jornalística a partir do meu ponto de vista. A participação da Beatriz foi algo extremamente natural, já que nós somos irmãs, então desde o início ela estava presente acompanhando as primeiras pautas, as primeiras escolhas de conteúdo. A Bia é atriz, estuda artes visuais, então acaba trazendo um olhar bem diferente do meu nos seus textos, uma presença artística que nem sempre o jornalismo pode alcançar.

O encontro com a Talita foi bem interessante, porque o blog acabou sendo a ponte desse contato. A Talita é escritora e jornalista, também tem um blog, o Ensaios em Foco que é incrível. Nossos primeiros contatos aconteceram por meio dos blogs e das mídias sociais. Depois de algum tempo, Talita me convidou para escrever o prefácio do “Recorte!”, seu livro de crônicas, então pensamos que esse tipo de material era a cara do blog e que seria interessante criar uma coluna semanal com a mesma proposta. Costumo dizer que a Talita é uma “jornalista do essencial”, seus textos sempre apresentam uma janela para o que é bonito (ou não) com muita delicadeza.

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O destaque dado as mulheres e a pluralidade cultural no Armazém representa um forma de ativismo?

Beatriz: Com o passar do tempo cuidando do Armazém (e muito devido as descobertas feitas por aqui), o feminismo ganhou um espaço fundamental tanto nas pautas que escolho abordar como na maneira com que trato os assuntos de modo geral. Sou feminista e as ideias que estão enraizadas na minha militância se expandem para cada texto que eu escrevo, ainda que de forma indireta. Com a pluralidade cultural funciona de forma parecida, nosso objetivo logo no início era trazer os muitos São Paulos presentes em SP, depois alargando para os muitos Brasis, que não estavam sendo apresentados na grande mídia, porque queríamos e ainda queremos mostrar que existem muitas vozes por aí, porém não temos a intenção e sabemos que não é possível falar por todo mundo. Então quanto mais pessoas conseguirmos trazer conosco para mostrar a cara e a cor do seu trabalho, acho que mais perto chegaremos do nosso propósito.

Talita: Creio que temos uma postura combativa contra a desigualdade de gênero porque nossa escolha por visibilizar os trabalhos produzidos por mulheres é bastante consciente e está entre as pautas prioritárias. Como colunista, abordo frequentemente questões que dizem respeito ao cotidiano de quem é mulher no contexto atual. Não me furto de falar da educação para o medo que recebemos desde a infância, das situações vexatórias a que somos submetidas nos transportes públicos e de tantos outros aspectos que formam a nossa identidade e estão ligadas ao gênero com o qual nos identificamos.

Meiri: É uma conta simples que vai além da militância: todas as matérias jornalísticas da mídia hegemônica terão homens como fonte, uma opinião masculina, mesmo quando é um assunto intrinsicamente ligado a vivência da mulher. Se essas matérias não procuram mulheres, vamos procurar. A militância acontece de modo muito mais subjetivo, nossas vivências, nossos contextos sociais são indicativos na hora de escolher uma pauta. Já apresentar o trabalho de mulheres, não. Nesse caso é uma meta objetiva, é absolutamente lógico, uma escolha consciente.

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O que vocês acreditam que pode ser feito para furar as bolhas de isolamento cultural da internet?

Talita: Penso que o Armazém de Cultura rompe com essa bolha justamente porque tem o cuidado de mapear o que está sendo produzido em termos de Brasil. As irmãs Farias , fundadoras do AC, são paulistanas, mas tem um senso territorial de país muito apurado. Tanto que escrevo minha coluna daqui do nordeste, de São Luís-MA, onde nasci e vivo, falando dos personagens, da cultura e dos costumes locais. A coluna Recorte! existe muito porque a Meiri e a Beatriz são honestamente interessadas na pluralidade de vozes, timbres e cores do nosso país. E é esse interesse que faz a diferença porque lança luz sobre o que aparentemente está longe, mas que tem muito a nos ensinar sobre quem somos e como vivemos dentro de uma mesma nação.

Beatriz: Conversamos muito entre nós e com os artistas que entrevistamos sobre essa contradição entre a democratização e dificuldade em sair da zona de conforto que a internet propicia. Acho que esse é um desafio que estamos detectando com mais intensidade agora que passou o choque de todas as maravilhas viabilizadas pelo mundo digital, mas ainda estamos (eu digo nós de modo geral, pessoas que falam sobre cultura) tateando às cegas para descobrir como fazer isso dar certo. Acredito que o primeiro passo é gerar esse incomodo, a pessoa fala que não existe música boa no país, por exemplo, e aí vale o cutucão de “o que você está procurando, como você está procurando?”. A partir do momento que a gente começa a entender que só recebemos um tipo de notícia porque só buscamos um tipo de notícia, a próxima etapa é correr atrás de outras coisas, a integração de blogs é importantíssima para que as pessoas comecem de algum lugar.

Como vocês definem suas pautas e prioridades de publicação?

Meiri: Temos uma proposta jornalística que não se pauta pelo hardnews (as notícias quentes, rápidas do noticiário cotidiano), mas que flerta bastante com ele. Textos opinativos, entrevistas e coberturas de eventos são os pilares do Armazém, que acabam definindo nossas ações e prioridades. Trabalhamos com algumas editorias fixas como a Dica de Segunda (coluna da Beatriz), coluna Recorte (assinada pela Talita) e a Abre Aspas, nossa editoria de entrevista. Também temos editorias esporádicas, como Questão de Opinião (resenhas nossas ou de convidados/leitores) e a Cotidianas (um texto mais denso, geralmente com gancho em algum evento do hardnews). É importante destacar que, com frequência, subvertemos nossas próprias diretrizes e apresentamos especiais de textos que fujam dos nossos próprios padrões, mudar sempre é parte dos nossos objetivos.

Nossas pautas surgem de curiosidades ou insatisfações. A internet é uma boa aliada nesse sentido, mas já conhecemos artistas na rua, em eventos, em centros culturais. Também recebemos bastante material, por iniciativa dos artistas, assessorias, etc., sempre há boas surpresas.

Porque vocês escolheram o WordPress.com?

Meiri: O WordPress é uma ferramenta de fácil utilização, mas que não subestima o usuário. Queríamos uma plataforma intuitiva, inteligente e simples, mas que apresentasse o conteúdo de forma bonita e profissional. Já estamos há três anos na plataforma e tem sido uma experiência muito boa.

Quais foram as principais dificuldades para começar o blog?

Meiri: Continuar é mais difícil que começar, é importante ter isso em mente. Vale a pena colocar no papel qual é o objetivo do blog, quem quero alcançar, qual conteúdo quero produzir. É bem menos complexo que parece, mas é muito importante ter o mínimo de planejamento editorial no início, talvez respondendo essas três primeiras perguntas já ajude a começar. Mas insisto, continuar é mais difícil. O blog é um compromisso, mas não é o único. Articular os conteúdos, conciliar o tempo no dia a dia, se organizar para realmente apresentar um material interessante, não se repetir e, principalmente, não escrever para ocupar espaço. O conteúdo precisa ser relevante. Se não acreditamos no conteúdo, não vale a pena publicar.

Que conselho vocês dariam para quem deseja começar a escrever sobre cultura no Brasil?

Talita: Estar sensivelmente atento ao modo de fazer e ao que está sendo produzido em todas as linguagens, principalmente no que concerne aos diálogos de repertório e referências. Enriquece a cobertura e produz um conhecimento consistente do que é cultura termos uma leitura ampla e uma visão aberta do que os artistas estão pensando e produzindo e como isso se conecta com o tempo e o espaço em que estamos. No mais, muita pesquisa, leitura e sensibilidade para dar conta do que nos propomos a reportar.

Beatriz: Não existe uma fórmula para escrever sobre cultura, ainda mais em um país tão amplo e contraditório como o Brasil. Acredito que entender que não existe resposta certa quando se trata de opinião é importante, então estar atento a outras bolhas que não sejam apenas aquelas a qual pertencemos, é muito rico para aprofundar o diálogo. Outra questão indispensável é saber discernir opinião de preconceito. Existe muito preconceito disfarçado de opinião hoje em dia, quando a gente fala de cultura isso é uma armadilha constante a ser ultrapassada.

Meiri: Acho que o mais importante é sempre questionar o que é cultura, afinal. Para além das linguagens artísticas que guiam a produção do jornalismo cultural, cultura é herança social, é um conjunto de fatores que nos identificam dentro de determinado tempo e espaço. A arte é uma fração desse todo. Jornalismo é cultura, comportamento é cultura, a arte também. O meu conselho é sair da superfície e pensar para além da agenda, para além do lead básico que já está esgotado. Buscar a cultura no cotidiano é mais difícil do que no teatro ou nos livros, mas pode ser tão fascinante quanto. O inverso também: entender uma peça, uma música ou um filme dentro desse contexto social e histórico é a maior ferramenta que a cultura nos fornece.

Gostariam de deixar alguma mensagem final?

Talita: A experiência de pôr na rede o que estamos pensando sobre nossas cidades e nossa gente é bastante importante e necessária para o nosso desenvolvimento humano e social. Dispomos de ótimas ferramentas para isso, como o WordPress, então fica o convite para nos lermos mais, a fim de dialogar e produzir.


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