Como a Inteligência Artificial vai mudar a indústria do conteúdo?

Se você trabalha produzindo conteúdo você precisa entender como a Inteligência artificial já mudou o presente e o que vem aí num futuro breve

Krishma CarreiraKrishma Carreira é doutoranda em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo e pesquisa o cruzamento entre inteligência artificial e comunicação, com foco na automação de conteúdo. É jornalista há 22 anos. Foi repórter e editora na TV Globo, Band e Rede TV e trabalhou com comunicação corporativa.

Esse ano como organizador da Social Media Week São Paulo tive o prazer de receber a palestra dela no evento sobre “Geração de conteúdo automatizado” que foi uma a primeira atividade sobre Inteligência Artificial a ter sua lotação esgotada no evento.

Foi um grande prazer quando ela topou conceder a entrevista que compartilho com vocês abaixo, são mudanças que já estão ocorrendo e vão representar um grande impacto na indústria do conteúdo nos próximos anos.

1) O quão eficiente são os robôs produtores de notícia?

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Existe um conceito interessante trabalhado pelo jornalista Robert Capps da revista Wired. Segundo ele, várias tecnologias representam uma “revolução boa o suficiente”  porque apesar de não terem um padrão de qualidade excelente, elas geram muitos benefícios porque são mais baratas, flexíveis ou convenientes. Esta ideia pode ser aplicada também às notícias automatizadas. Os softwares podem não gerar um texto jornalístico primoroso e digno de prêmios, mas esta tecnologia é funcionalmente adequada, veloz e tem um custo interessante. Ou seja, ela é boa o suficiente para ser usada.

Talvez a velocidade de produção de conteúdo seja o fator mais determinante para introduzir a automação de notícias nas redações, pois, na era atual, ela virou uma medida cada vez maior de eficiência. O jornal Le Monde usou automação nas eleições departamentais de 2015. O software usado pelos franceses produziu 150 mil textos curtos durante 4 horas (625 notícias por minuto).

A agência norte-americana Associated Press (AP) é outro exemplo interessante. Antes da automação, os jornalistas econômicos faziam notícias sobre os resultados trimestrais das maiores companhias americanas com 130 palavras, em média, cerca de 15 a 20 minutos depois que elas divulgavam os relatórios com os resultados. Com a automação, os textos aumentaram para 500 palavras, em média, e são postados 1 minuto após a divulgação. A automação liberou 20% do tempo da equipe que cobre essas notícias na AP. O software fez o trabalho que seria executado por três jornalistas com dedicação ao serviço em tempo integral. Com a automação, a AP também foi capaz de aumentar o número de empresas cobertas, introduzindo informações sobre companhias menores, que ficavam fora do raio de ação dos jornalistas que, em função do tempo e do tamanho do time, tinham que optar pelas maiores empresas.

A velocidade de produção de conteúdo automatizado pode ser demonstrada ainda em outro caso. A empresa norte-americana Automated Insights fornece, no site da empresa, um exemplo do potencial do software para produzir versões: a partir de um único texto com 3 sentenças, o programa gera 140.000 possibilidades de variações.

Portanto, podemos concluir que o software pode ser uma opção a ser considerada nas ofertas de conteúdo em que a velocidade e a atualização constante são fatores determinantes e representam um diferencial competitivo.

Outro fator que pode demonstrar a eficiência do texto automatizado é o resultado de algumas pesquisas que foram realizadas até o momento por pesquisadores suecos, holandeses e alemães. Independentemente da diferença metodológica, elas indicam que os textos feitos por softwares são considerados mais descritivos, objetivos e precisos. Em termos de credibilidade, as notícias automatizadas tendem a ser avaliadas de forma melhor do que as escritas por jornalistas, talvez porque os leitores creiam mais em matérias com muitos dados, o que é típico das notícias automatizadas. Em algumas dessas pesquisas, a autoria das matérias não foi identificada, sendo que textos escritos por softwares, muitas vezes não foram percebidos como tal nem por jornalistas entrevistados.

Mas a automação de notícias não pode ser usada em todos os tipos de matérias. Ela só pode ser empregada em tópicos com dados estruturados, por isso é mais comum em notícias esportivas, financeiras, de climas, estatísticas de crimes e resultados eleitorais. Ela pode ser usada estrategicamente na cobertura de notícias que não demandam a participação de um jornalista que, em tese, ficaria livre para fazer as reportagens mais complexas ou matérias não estruturadas em dados.

Consegui localizar até, o momento, 62 empresas de jornalismo (Forbes, USA Today Sports, Bloomberg, Le Figaro, Deutsche Welle, The Asia Economy Daily, etc.) que produzem notícias automaticamente no Reino Unido, Alemanha, França, Suécia, Dinamarca, Noruega, China, Coreia do Sul, Rússia, Estados Unidos e Israel.

Além disso, identifiquei 14 empresas de tecnologia que desenvolvem plataformas de Geração de Linguagem Natural para essas empresas de jornalismo e 6 grupos de comunicação que criaram os programas internamente, como o Los Angeles Times. Mas o número de redações com notícias automatizadas deve ser ainda maior, pois algumas empresas ainda estão em fase de teste, outras em processo de negociação ou não autorizam a divulgação de seus nomes.

Outro indicativo que demonstra que o grau de disseminação da automação no jornalismo deve ser ainda mais amplo é o fato dele ser adotado em algumas agências de notícias como Reuters, NTB, Xinhua, Interfax e Press Association. Como elas distribuem conteúdo para vários veículos, muitas empresas acabam divulgando as notícias automatizadas que foram enviadas pelas agências. A Associated Press (AP), por exemplo, apenas nos Estados Unidos, fornece notícias para 1400 jornais e para várias redes de televisão e rádio.

2) Como a Inteligência Artificial vai mudar o mercado nos seguintes tópicos:

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a) SEO e Engajamento com os leitores

A notícia automatizada possibilita que a audiência possa obter as informações que ela quer, no momento e no lugar adequados para cada leitor. Ao conectar o conteúdo desejado diretamente ao consumidor interessado, a automação pode ajudar a aumentar o engajamento e a conquistar mais assinantes. Estes softwares também adotam estratégias muito eficazes de SEO, gerando melhor posicionamento de um site nas páginas de resultados orgânicos. Isto é, eles fazem com que o conteúdo apareça em melhor posição nas buscas feitas espontaneamente pelos usuários sem depender de link patrocinado. Quando o software gera um texto automatizado para um grupo de leitores, ele também produz as palavras-chave certas para atrair a audiência. Esta estratégia tanto pode gerar maior número de visitantes, como pode ajudar em algo vital para as empresas de jornalismo: a monetização.

b) Personalização do conteúdo de acordo com a audiência

Os softwares de automação podem produzir conteúdos personalizados até para um único usuário, o que pode ampliar o tráfego nos sites, aumentar o engajamento e pode ajudar nas estratégias de monetização e na oferta de publicidade direcionada.

A customização pode ser feita não só relação ao conteúdo, mas também em relação à linguagem e até à língua. E ela não ocorre só com o usuário. O texto produzido automaticamente se adequada também ao estilo de cada grupo empresarial que o utiliza.

Por outro lado, no caso do jornalismo, a personalização pode ser controversa e ampliar o que ficou conhecido como filtro bolha. Ou seja, se os algoritmos entendem o comportamento do usuário e entregam para ele conteúdo sob medida, ele pode ficar restrito ao tipo de conteúdo que apenas reforça sua crença, ampliando dificuldades de relacionamento com pensamentos mais diferentes. Mas isso não ocorre só com o conteúdo automatizado. Trata-se de uma realidade da internet.

c) Ecommerce

As principais plataformas de Geração de Linguagem Natural já têm e-commerces como clientes. A tarefa de descrever produtos é extremamente trabalhosa e boa parte das empresas tem dificuldade para encontrar mão de obra qualificada de acordo com os salários pagos para esta função. Por isso, o emprego de softwares neste setor tem bom resultado: gera texto velozmente, completando as lacunas, com dados, em um template preparado anteriormente de acordo com o estilo de texto de cada empresa.

d) Vídeos

A startup israelense Wibbitz, por exemplo, transforma, automaticamente, em vídeo, qualquer texto que está no site de empresas como USA Today Sports, CBS Interactive, Le Figaro, Aol, Time Inc e TMZ. Ela faz isso em menos de dois minutos e ainda distribui o vídeo para redes sociais.

e) Empregabilidade

Tudo indica que as funções muito repetitivas, redundantes, pouco criativas e extremamente baseadas em dados deverão ser substituídas pelos softwares. Vale ressaltar que tem produtores de conteúdo que, em função da cobrança de tempo e de alta produtividade, produzem conteúdo de forma totalmente automatizada e sem nenhuma qualidade.

Não dá para competir com a máquina em termos de velocidade, custo e quantidade de conteúdo gerado. É duro afirmar isso do ponto de vista social, mas do ponto de vista gerencial, pelo menos, isso é verdade. O gestor de comunicação deve pensar em formas de  juntar a força do produtor de conteúdo e do software, para que eles trabalhem de forma complementar.

3) Que atividades humanos ainda performam melhor do que as inteligências artificiais?

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Os humanos são muito mais criativos do que as máquinas. Ou pelo menos deveriam ser, já que nem todos utilizam essa característica em todo o seu potencial.  Eles podem ter mais empatia e podem fazer textos mais sofisticados e que geram leitura mais prazerosa. Eles também têm mais capacidade de negociação e de ter ideias originais. Essas são as características que nos tornam diferentes das máquinas e temos que explorar isso cada vez mais e melhor.

Algumas novas funções estão sendo criadas como a função de editor de Inteligência Artificial.  Outro profissional necessário é aquele capaz de traduzir para os programadores o passo a passo de um produtor de conteúdo, para que eles repassem essas rotinas para os softwares. O produtor de conteúdo vai precisar programar também? Não necessariamente, mas será cada vez mais exigido entender, pelo menos, a lógica de funcionamento desses programas. Ou seja, precisamos, com urgência, desenvolver novas competências para este cenário que está em plena mudança.

4) Para o leitor o que muda com as notícias automatizadas?

Todo leitor quer conteúdo com qualidade e com credibilidade, seja ele feito pela máquina ou por um ser humano. Mas ele precisa saber quem ou o que faz esse conteúdo. E como faz também! Trata-se de uma nova forma de educação digital

Também acredito que será preciso um novo código de ética capaz de dar conta dessa nova realidade estabelecendo condutas e procedimentos não só para os seres humanos, mas para a máquina também!


Se você quiser se aprofundar no assunto segue abaixo os slides da palestra da Krishma na SMWSP bem como o vídeo na íntegra publicado no Facebook da ESPM:


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