Blogs em Destaque: HQRock

O que sociologia, música e conteúdo tem em comum? Um blog agradável de ler! Conheça o HQRock

Nessa semana vamos dar destaque ao HQRock, um blog que une duas de minhas grandes paixões: Histórias em Quadrinhos e Rock.

Irapuan Peixoto, o autor do blog, é Doutor em Sociologia, professor universitário, músico e escritor amador. Depois de algumas semanas de correria finalmente consegui a entrevista que divido com vocês abaixo.

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Quem foram suas primeiras influências no mundo da HQ e do Rock?

Como fui criança nos anos 1980, tive a oportunidade de vivenciar um contexto muito legal para ambas as mídias.

No caso das HQs, vivíamos o período do boom editorial da Editora Abril, que ampliava a publicação dos super-heróis Marvel e também adquiria os direitos da DC Comics. Também tinha a Turma da Mônica, com o Maurício de Sousa e as histórias da Disney, então, havia toda essa efervescência que foi muito salutar. Como tinha irmãos mais velhos, já havia gibis espalhados pela casa quando nasci e comecei a “lê-los” antes mesmo de aprender a ler ou escrever. Lembro particularmente das HQs do Capitão América e a Heróis da TV; e dos primeiros números das revistas do Homem-Aranha e do Hulk, que foram lançadas em 1983, salvo engano. Na medida que comecei a ler, era grande fã da Turma da Mônica e dos Almanaques da Disney. Em 1987 a Turma da Mônica foi relançada na Editora Globo e meus pais compraram todos os primeiros números daquela coleção.

Mas meu forte eram mesmo os super-heróis. Me lembro particularmente de ler a fase do John Byrne no Superman, ainda “catando” a coleção do meu irmão.

A_TEIA_DO_ARANHA_A_11_1321489448BEm algum momento ali pelo fim dos anos 1980, meu irmão entrou na adolescência e deixou os gibis de lado, e minha mãe deu fim neles. Eu mesmo só comecei a “comprar” (ou seja, a pedir aos meus pais) em 1989 e 1990, quando tinha cerca de 10 anos. Digamos que foi quando realmente entrei naquele mundo por meu próprio gosto, quando me tornei um colecionador. Neste sentido, minha porta de entrada foi A Teia do Aranha, com aquelas maravilhosas aventuras do Stan Lee e John Romita. Vi o número 11 (eu acho) em uma livraria, com a capa do Electro e fiquei magnetizado. Quando li, percebi que eram histórias antigas e que a Abril também publicava as aventuras “atuais” (com quatro anos de atraso!) na O Espetacular Homem-Aranha e passei a colecionar ambas. Naqueles tempos pré-distribuição setorizada era relativamente fácil encontrar os números mais antigos nas bancas e corri atrás e achei muitos. Daí, o resto é história: vieram as outras HQs da Marvel e da DC Comics.

Quanto ao rock, de novo, por meio dos meus irmãos mais velhos ouvi o boom do BRock a partir de 1985, com RPM, Legião Urbana, Engenheiro dos Hawaii, Titãs, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha… Meu irmão mais velho gostava de surfar e essa tribo ouvia muito rock dos anos 1980, como The Police, The Cure, Dire Straits e até coisas que ainda eram alternativas e, pouco depois, viraram sucesso de massa, como U2 e REM. Minha entrada foi aí.

Em 1989 eu conheci os Beatles, por meio de um programa de TV. Aquela música me causou um grande impacto e me tornei colecionador deles. E o modo como estavam relacionados aos anos 1960 permitiram que me aproximasse de seus contemporâneos, como Rolling Stones, Pink Floyd, Eric Clapton e Bob Dylan. De fato, esse ainda é o tipo de rock que mais gosto até hoje. Embora meus amigos que também gostavam de rock clássico fossem em sua maioria avessos às novidades, eu nunca tive tal postura e me permiti ouvir o que estava acontecendo no rock da época, curtindo o que ia surgindo desde os anos 1990 até hoje.

Pra mim sempre pareceu que Rock e Quadrinhos andavam junto, como sociólogo você tem alguma análise ou comentário sobre o assunto?

Sim, você está certo: há mesmo algum tipo de conexão. Para dizer a verdade, isto é algo que estou pesquisando neste exato momento, com jovens que frequentam o Ensino Médio. Por enquanto, já é possível afirmar que existe mesmo essa conexão, mas ainda estou formulando explicações para isso. Uma hipótese é que para ingressar num universo ou no outro, do rock ou das HQs (e mundo nerd em geral), é preciso ser aberto ao consumo de bens simbólicos mundializados, que rompem com a cultura local. Essa “abertura” talvez seja o elemento, porque faz com que o sujeito busque cada vez mais informações e acumule o que na Sociologia chamamos de Capital Cultural, uma série de aprendizados, conhecimentos e bens simbólicos que são usados para “navegar” em campos específicos da vida social.

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Nas minhas pesquisas, por exemplo, percebemos que jovens que escutam rock (um gênero musical globalizado) leem mais do que outros que gostam de gêneros musicais mais regionalizados, como sertanejo, pagode ou forró. O jovem que lê gosta fundamentalmente de cultura pop (e geek), o que o coloca em contato com HQs, mangás e a literatura juvenil marcada essencialmente pela fantasia, como Harry Potter, Convergente, Maze Runner e similares.

Resta entender o por que de alguns jovens resolverem ampliar seu capital cultural ao se colocar em contato e consumo com tais bens.

Atualmente temos muitos quadrinhos virando filmes e grandes bandas de rock vindo regularmente ao Brasil, como isso muda as próximas gerações?

Isso muda as novas gerações num sentido de que elas têm acesso mais fácil a esse tipo de bem cultural. Esses novos jovens terão mais informação, mas isso não garante necessariamente uma melhor qualidade no uso das informações. O que parece ocorrer é um processo de maior fragmentação. O acúmulo de informações gera especialização, tal qual ocorre no campo científico, e isso faz com que se formem “grupinhos” mais especializados. O problema dos jogos identitários é que, no momento em que um grupo se percebe com uma autoidentidade fortalecida, precisa “prova-la” diante dos demais, os “outros”, e isso gera rivalidades. Num exemplo prático, é provável que cresça a rivalidade entre “marvetes” e “dcnautas”. Antes, na minha época e na sua, a gente lia o que conseguia alcançar, o que era bastante restrito. “Saber mais” naquele tempo significava ter um habitus de “pesquisador” ou “colecionador”, ou seja, ter energia para ir atrás de mais informação. Como era algo mais casual e individualizado, não gerava tanta rivalidade, embora ela existisse. Hoje em dia não: o grande volume de informação e de acesso aos bens culturais gera o processo mais direto de autoidentidade e os conflitos daí resultantes. De algum modo, o uso das redes sociais parece potencializar não somente o contato, mas também a agressividade. É incrível como existem “tretas” nos comentários e grupos do Facebook sobre HQs ou nos comentários dos sites e blogs dedicados a eles.

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Quanto aos filmes, acho maravilho ver um sonho se tornar realidade, com os meus heróis favoritos virando personagens de carne e osso. E acho que a qualidade da maioria deles é muito boa. São filmes de entretenimento, mas trazem questões interessantes, levantam temas e geram alguma reflexão. É bem possível que ocorra alguma saturação do mercado em breve, mas não deixa de ser um fenômeno interessante. É uma pena que as editoras Marvel Comics e DC Comics jamais conseguiram realmente capitalizar em cima dos filmes e usá-los como plataforma para impulsionar as vendas ou a popularidade de suas HQs.

Como você seleciona as pautas entre Rock e HQ, há algum balanceamento?

Sim, há um balanceamento. Fico prestando atenção se a cota de postagens sobre filmes está excessiva e intercalo com outras sobre as HQs propriamente ditas. Também procuro estabelecer certa paridade entre o tema das HQs e do Rock. Claro, no meu blog, a demanda por Rock é muito menor, então, a proporção de notícias é de 3 para 1, mas venho tentando diminuí-la nos últimos meses e acho que já consegui alguns avanços. Antes, raramente uma postagem sobre Rock permanecia entre as 10 mais acessadas da semana ou do dia. Agora não, esse número vem crescendo.

A seleção para decidir o que publicar passa por notícias ou informações que sejam realmente interessantes e, particularmente, que não cheguem ao público leitor que gosta de quadrinhos ou rock por meio da mídia tradicional (os grandes sites) ou que isso seja mais difícil. Já há algum tempo, me convenci de que não sou um site de notícias, mas um blog que comenta as notícias mais interessantes do dia ou da semana. Não sou uma agência e faço tudo sozinho, então, não posso me cobrar (e nem ser cobrado) em dar “furos” ou ser o primeiro a noticiar tal coisa. Mas meu diferencial é um bom texto, uma análise menos apaixonada e mais informação aqueles que querem saber sobre o que está “rolando” nesse mundo.

Ainda sobre seleção de temas, também é preciso ter alguns recortes. Não posso dar conta de todo o mundo dos quadrinhos, então, foco em Marvel e DC. Do mesmo jeito, o mundo do rock é grande demais, assim, priorizo um gosto musical “médio” do gênero. Desse modo, há muito mais notícias sobre o rock clássico do que do contemporâneo, mas também estou tentando diminuir essa distância.

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Quanto às fontes, priorizo sites confiáveis e que sejam mesmo a fonte da informação. No caso dos quadrinhos, há uma extensa lista de sites que percorro constantemente, como The Hollywood Reporter, Variety, The Wrap, Collider, Comic-Book, Comic Book Resources e Comic Book Movie. No caso do rock, fico atento às páginas oficiais dos artistas, o que é muito facilitado pelo Facebook, que nos notifica as notícias mais interessantes; mas também uso alguns sites de informação, como a BBC, os jornais britânicos, a revista Rolling Stone e alguns brasileiros também, como o Destak e o Tenho Mais Discos que Amigos.

Como é o seu relacionamento com os leitores?

A relação com os leitores em geral é muito boa. Desde o início tenho alguns seguidores fiéis e isso gera boas conversas nos comentários das postagens mais importantes. Mas honestamente, não sou um blogueiro muito tradicional e o meu uso das redes sociais é relativamente restrito, o que diminui o contato constante. Entendo que para um site ser mais comentado e visitado é preciso uma participação mais agressiva nas redes sociais, porém, não faço isso. Minha audiência é em grande parte “espontânea”, que chega ao blog buscando informação ou por indicação de amigos. O HQRock tem uma página no Facebook, mas o nível de integração com o público é bem pequeno e sei que isso é, em grande parte, culpa minha.

Porque você escolheu o WordPress.com?

Criei o blog porque sempre gostei desses temas e, como lia os sites de notícias, ficava munido de muita informação, que compartilhava com os colegas. Isso levou à ideia de fazer um blog, algo que partiu muito de minha esposa, que sempre me incentivou nesse sentido. Mas era um mundo totalmente novo para mim: sequer sou um aficionado da tecnologia, então, tive que estudar um pouco sobre os blogs e como eles funcionam. Escolhi o WordPress por indicação de alguns dos meus alunos que alimentavam alguns blogs. Havia outras opções e dei uma olhada, mas o WordPress me pareceu o mais adequado e deu certo.

O blog já lhe gerou algum tipo de oportunidade?

Essa é a maravilha da internet. Ela possui essa capacidade de aproximar pessoas e de encontrar informação. Isso já resultou em algumas oportunidades interessantes. Certa vez, por exemplo, ao fazer uma postagem sobre o Mike Deodato Jr. (desenhista brasileiro que trabalha na Marvel e já desenhou o Homem-Aranha, os Vingadores e muito mais), ele próprio comentou, questionou algumas informações e batemos um papo. Por várias vezes, o blog já foi procurado por estudantes que queriam informações para seus trabalhos acadêmicos sobre histórias em quadrinhos, o que me levou a ser citado em reportagens de jornal e participar de alguns podcasts.

action e comics

Outra boa oportunidade foi que me tornei colaborador do site Action & Comics, hoje um dos mais populares do Brasil, o que é muito legal.

Mas acho que uma importante oportunidade eu perdi: logo no início do blog, fui procurado pela revista Rolling Stone brasileira, que queria republicar material meu e que eu escrevesse para eles. Mas eu questionei alguns pontos do contrato e eles nunca mais me procuraram (risos).

Quais dicas você deixaria para quem quer escrever sobre cultura nerd no Brasil?

Acho que principalmente duas.

A primeira, que busquem fontes confiáveis. Os rumores que surgem na internet são até interessantes para especular, mas é preciso saber a diferença entre especulação e notícia.

A segunda diz respeito ao modo como se escreve. Uma boa escrita, penso eu, é fundamental. A qualidade dos textos na internet em geral – e mesmo em grandes sites do gênero nerd – é muito sofrível. Há erros graves de português, por exemplo. Como venho do meio acadêmico, tenho toda a preocupação em escrever bem. O que não significa escrever complicado, afinal, a intenção é que a informação chegue ao leitor. Mas o modo como se escreve também diz respeito ao nível de emoção colocado nas postagens. Claro, cada um é livre para escolher seu estilo de blog ou site, mas eu prefiro diferenciar o blog de uma conversa informal. Desse modo, doso a emoção nas postagens, porque muitos dos meus colegas terminam exagerando e, com isso, escrevem textos ofensivos e de mau gosto. Não gosto disso.

Gostaria deixar alguma mensagem para os leitores do blog WordPress.com Brasil?

Bom, queria apenas agradecer a oportunidade, parabenizar o WordPress.com por estar sempre em busca de melhorar sua interface e dizer aos leitores que circulem pela internet brasileira e se permitam descobrir a infinidade de blogs interessantes que existem por aí e que podem trazer muita informação e diversão.


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1 Comentário

Comentários encerrados.

  1. sharah2017

    Adoro seu posts pois acabei de criar meu blog …

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