Blogs em Destaque: Razão Inadequada

Como mobilizar pessoas na internet em torno de artes e humanidades?

Essa semana vamos ouvir a história de dois “Rafaéis” que desde a infância conversavam sobre filosofia, psicologia e artes, até que um dia nasceu o blog Razão Inadequada, apesar dos assuntos pouco populares eles conseguiram montar um blog e uma página no Facebook com ótima visibilidade e que recebe bastante feedback dos seus leitores.

O Razão Inadequada foi criado no WordPress.com usando o tema Hermes , um tema moderno e minimalista, elegância e simples, adequado para blogs criativos de diversos assuntos.

Tive o prazer de me corresponder com ambos os Rafaéis por e-mail (confesso que nunca sabia exatamente qual dos dois respondia) e recebi uma entrevista bem interessante, cheia de boas reflexões, que compartilho aqui com vocês:

Qual é a história do nascimento do Razão Inadequada?

A decisão de começar a escrever foi tomada depois de um tempo maturando a ideia. Nós dois conversávamos muito sobre filosofia, psicologia e artes. Já havia um tempo que tínhamos vontade de ampliar o centro de discussões e levar o pensamento para outras pessoas que não apenas aquelas próximas de nós.

Somos amigos de infância e sempre trocamos muitas ideias sobre a vida, sobre interesses e reflexões. Assim, sair de uma discussão entre amigos para criar um blog mostrou-se algo natural: era apenas fazer o que já fazíamos mas agora em textos. Mesmo assim, houve um momento de indecisão, porque não conhecíamos muitos blogs que tratavam do assunto.

Os dois “Rafaéis” são os mesmos desde o começo, isso não mudou em nada. O que está diferente são as pessoas que se aproximam de nós neste processo. Ao longo de cada momento do blog, diferentes colaboradores nos ajudaram colaboraram conosco. Tudo ocorreu de maneira muito solta, sem pressão, sem cobranças, apenas envolvendo o mútuo interesse de ambas as partes. Isso permite uma mobilidade grande. Hoje, por exemplo, nossas principais colaborações são com os interessados em gravar a leitura de um texto, os áudio-textos se tornam interessantes exatamente porque propiciam outras vozes, outros pensamentos, outras interpretações para nossas ideias. Não somos um grande coletivo, mas falamos em múltiplas vozes.

Qual a visão de vocês sobre a exigência de filosofia no ensino médio?

Entendemos que qualquer coisa que seja obrigatória corre o risco de ser vista como chata e desnecessária. Não temos grandes esperanças com o Estado e não encontramos nele a saída para nossos problemas. Ainda assim, entendemos que a retirada da filosofia pode ser muito prejudicial para o raciocínio crítico de qualquer pessoa. Portanto, é uma questão difícil de ser respondida. Não achamos que a matéria deveria ser obrigatória na grade curricular (não é à toa que se chama grade), mas também achamos que o pensamento filosófico é fundamental para refletirmos sobre a vida e na sua ausência nos tornamos muito mais pobres existencialmente.

O ensino da filosofia tende a tornar-se um empecilho para a própria filosofia. Nas academias o que se faz, no mais das vezes, é apenas aprender sobre certas escolas de pensamento, sem que isso se torne um afeto (dizemos isso pensando em Espinosa). Um pensamento que não seja, como disse Foucault, uma caixa de ferramentas de conceitos que possamos usar em nosso cotidiano, não serve para nada.

Alguma filosofia é melhor que nenhuma? Talvez. Questões difíceis de se abordar sem que olhemos caso a caso. De qualquer maneira, o problema maior a ser enfrentado não é a (des)instituição da filosofia, mas a esterilidade dela, isto é, sua incapacidade de afetar, produzir encontros, acelerar ou refrear pensamentos. É preciso que a filosofia seja uma força do pensamento e que ela nos tome por interesse.

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Como é o seu relacionamento com os leitores?

Procuramos ter um relacionamento o mais direto e horizontal, isso ocorre no blog e agora nos nossos cursos. Temos a preocupação de deixar claro aquilo que queremos dizer, sem trazer conosco uma verdade universal e irrefutável. Alguns leitores nos procuram para encontrarem mais referências teóricas e outros caminhos, nós gostamos sempre de abrir outras possibilidades de leitura e pensamento para todos.

Por outro lado, somos meio arredios à discussões. Isso costuma ocorrer em alguns textos mais polêmicos, que tratam de assuntos mais delicados. Nós não enxergamos nas discussões de internet uma saída satisfatória para nossas angústias, por isso abdicamos de confrontarmo-nos com agressividade e prepotência. Acreditamos piamente que o diálogo é possível, mas sabemos o quanto o mundo digital às vezes dificulta isso.

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Como tem sido a experiência com outros formatos além do texto?

Muito boa, muito mesmo. É um enorme prazer ver o quanto o pensamento filosófico consegue se associar com os mais heterogêneos campos. A literatura e a pintura são muito importantes para nós. O mesmo vale para a música, que sempre procuramos associar. Quando começamos a ver que isso é real, possível, e que a cada dia mais está acontecendo em nossas vidas, nós realmente nos surpreendemos. Um bom texto associado a uma bela pintura, ou que se usa de conceitos musicais, alcança lugares impensáveis.

Se antes era apenas uma página, onde alguns textos eram publicados, agora vemos o potencial disso tudo. As virtualidades que podem se atualizar em cada pensamento. Para um simples conceito como “Conatus”, nós podemos abrir inúmeros campos: podcasts, pinturas, músicas, palestras, entre outros. O pensamento sempre dá um jeito de chegar… parece que é isso que estamos querendo dizer.

Temos a intenção de ampliar as possibilidades neste sentido. Um texto pode ser lido por algum amigo nosso, pode também virar uma revista, pode virar um curso ou ser tema de uma festa. Por que não?

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Conte me um pouco mais sobre os cursos…

Os cursos são um projeto que já gostaríamos de ter organizado muito antes. Em um primeiro momento, fizemos parcerias para que conseguíssemos transmiti-los online, já que a grande maioria do nosso público não mora em São Paulo. Mas nosso maior intento era conseguir cobrar um preço que nos deixasse confortáveis de divulgar e levar adiante. E, quanto mais pessoas envolvidas, maior o custo. Assim, resolvemos simplificar. Estamos dando as aulas, cuidado da divulgação, transmitindo online – tudo feito apenas por nós e com nossa estrutura.

Quando isso se tornou possível, não faltavam ideias. Resolvemos começar do básico: o que é Filosofia? Tema aliás, de nossa segunda revista. Depois disso passamos para os conceitos fundamentais, o que se tornou a principal vertente de nosso site, um lugar para falarmos de conceitos filosóficos. Estamos neste momento na quarta edição deste curso, Conceitos Filosóficos IV. Mais de 100 alunos assistiram os últimos. É uma enorme alegria.

O feedback tem sido incrível, e vislumbramos a possibilidade dessa modalidade crescer dentro do blog, inclusive tomando outros formatos como grupos de estudos, por exemplo. O site tem a intenção clara de divulgar o pensamento dos filósofos de maneira clara e concreta, sabe? Com impacto. Não nos escondemos atrás dos conceitos, mas os abrimos ao meio para mostrar suas entranhas. Queremos continuar fazendo isso de graça, por puro excesso, pelo puro desejo de escrever sobre o assunto. Os cursos, por sua vez, tem um custo difícil de ser eliminado, mas trabalhamos sempre com a ideia de fazer pelo menor preço possível.

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Que oportunidades o blog já trouxe pra vocês?

Nosso site é bem lido em muitos meios acadêmicos e por escolas aí afora. Isso nos deixa muito felizes, porque compreendemos então que estamos fazendo um bom trabalho. Já fomos convidados para algumas palestras e percebemos que nosso pensamento está à altura daqueles que muitas vezes chegam com mestrados e doutorados nas costas. Por que não é uma questão de teoria, mas de práxis. Não é questão de acumulo ou distribuição de conhecimento, nem de mérito ou especializações, mas de potência. Nós acreditamos cada vez mais na nossa capacidade de fazer o pensamento chegar nas pessoas.

Um dos nossos maiores aliados é o Luiz Fuganti da Escola Nômade, que é antes de tudo, um mentor. Devemos muito ele. Já demos outras entrevistas e veiculamos nossos textos em outros lugares menores também. Mas retornamos sempre à nossa ação básica, lançar textos novos e interessantes em nossa página. Nos irritamos um pouco quando copiam o conteúdo do blog sem as devidas referências. Alguns sites bem maiores que o nosso já fizeram isso… simplesmente copiam e colam o conteúdo de nossa página como se fosse deles, sem citar de onde veio. Não é uma questão de direito, nós não nos importamos com isso, pois, se copiam, sinal que o texto é bom, que ele chamou a atenção, causou alguma coisa. Mas sem as referências, como o leitor encontrará outros textos parecidos?

Que dicas vocês dariam para quem pretende escrever sobre artes e humanidade na internet brasileira?

A resposta é bem clichê, mas absolutamente verdadeira, a primeira preocupação é com o conteúdo. Sem isso não se chega em lugar nenhum. Na verdade o que queremos dizer é que sem conteúdo não se chega em nenhum lugar de interessante. Sim, a página é boa, sim, possui fotos legais, claro, temos cursos e etc.. Mas sem um bom texto de que vale tudo isso? Não nos preocupamos com milhões de visualizações, curtidas e compartilhamentos. Se isso ajudar o pensamento a chagar mais longe, ótimo. Sabemos que um trabalho sólido, bem feito, nos dará muito mais prazer durante o processo do que uma maestria no uso do GoogleAnalytics.

É um prazer saber que o blog vem crescendo anualmente e que podemos nos orgulhar dele ser lido por tantas pessoas. Isso significa que estamos fazendo um bom trabalho, e o melhor, um trabalho que queremos fazer e que nos traz imensa satisfação. É um ciclo virtuoso.

O que podemos dizer para concluir é que nosso objetivo é tornar o pensamento novamente perigoso, não opô-lo à ação, mas fazê-los caminhar juntos. Com esse intendo, sabemos que vidas podem ser muito mais interessantes do que são. Dizemos isso com convicção porque sabemos o quanto a filosofia tornou nossa própria vida muito mais gratificante. Não pelo que virá depois, mas pelo que ela é em si.


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1 Comentário

Comentários encerrados.

  1. Blog.tynnynhapanky@beleza saude mix turbo

    Bem detalhada e esplicado amei.

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