Freelancing, Home Office e Conteúdo: um bate papo com Jacqueline Lafloufa

Entre o CLT e o Home Office, de programadora a jornalista, conheça um pouco da história dessa cientista do conteúdo.

O blog do WordPress.com no Brasil é um espaço para estimular pessoas e empresas a produzir conteúdo na internet, temos falado bastante aqui sobre eventos, dicas de tecnologia e comunicação e queremos começar também a contar histórias que inspiram.

A primeira história que gostaria de contar é a de Jacqueline Lafloufa, uma usuária de WordPress inquieta por natureza. Em sua biografia nas redes sociais ela se define como editora na Kantar, jornalista, consultora e curiosa, CEO do Interwebzbr, colunista na revista Galileu, blogueira no Brasil Post e autora no Brainstorm #9.

Jacqueline trabalha com a produção de conteúdo e tem experimentado diversas formas de trabalho e remuneração, se você produz conteúdo profissionalmente ou pretende viver de conteúdo no futuro com certeza essa história vai te apontar diversos caminhos interessantes.

Jacqueline Lafloufa

Jacqueline Lafloufa, programadora e jornalista

E: Jacq, como você consegue dividir seu tempo entre tantos trabalhos diferentes?

J: Começou na época que eu era editora do Blue Bus, como isso não me tomava 100% do tempo eu também fazia outros trabalhos freelancers. Quando fui editora do Brainstorm #9 eu também tinha tempo sobrando e fui mantendo minha participação em outros veículos. Isso tem mudado com o trabalho como Editora na Kantar que, diferente dos outros trabalhos, possui um contrato onde exige uma dedicação maior de tempo. Em função disso eu estou nesse momento ajustando minha frequência de colaboração com cada um desses veículos.

Eu acabei de terminar uma consultoria para uma emissora de TV e o que eu combinei é que poderíamos fazer reuniões antes das 9:00, na hora do almoço ou depois das 18:00, além disso sempre tem aquela hora da noite em que você pode escrever alguma coisa. Agora eu estou num projeto CLT (Kantar) e isso complica um pouco, mas quando você é freelancer, você vende seu trabalho como freelancer e encaixa ele nas suas horas livres.

Pra isso é fundamental saber:

  • Quais são os seus horários livres.
  • Quanto tempo você usa para cada trabalho.
  • Aprender a falar não se as suas horas livres acabaram.
  • Saber quais são os seus limites para não se estafar.

E: Pra você quais foram os maiores desafios no trabalho Home Office?

J: Existe um mito horrível de que quem faz Home Office não trabalha. A minha experiência é completamente diferente, eu acordo as 8:00, entro no trabalho e esqueço de almoçar. O Home Office pra mim providencia um nível de concentração tão grande que eu esqueço das outras coisas (pessoais) que deveria fazer. Já teve situação em que eu estava trabalhando 12 horas sem parar.

Então o maior desafio foi ter essa consciência de controlar as horas para não deixar de me alimentar ou tomar água. Tanto minha mãe quanto meu namorado me alertaram nessa época que eu estava trabalhando demais, então eu comecei a prestar mais atenção nisso. A Kantar é uma empresa britânica e uma coisa que estou aprendendo muito com eles é essa gestão melhor do tempo, você não pode trabalhar demais senão você estafa.

E: Como é o trabalho CLT pra você?

J: A Kantar é uma empresa muito moderna nesse sentido “CLT” e permite que eu passe uma parte do meu tempo de trabalho em home office. Como o time é global, isso faz pouca diferença – posso estar trabalhando às 6h30 da madrugada em casa ou até mesmo durante a noite, sem precisar ir a São Paulo “bater cartão”. Além do que, morando em São José dos Campos, eu tenho um custo de vida bem menor – morar em São Paulo, por exemplo, custa em média 3 vezes mais do que por aqui. O formato que a Kantar permite me viabiliza ir a São Paulo todas as vezes que precisarem de mim, mas não me obriga a ir ao escritório quando não há necessidade – afinal, se tem uma coisa que eu aprendi como freelancer é que posso trabalhar de quase qualquer lugar com energia elétrica e internet.

Eu tive no passado uma carreira de programadora ASP durante 1 ano e meio, eu tinha uns 17 anos, e naquela época fazia um pouco mais de sentido porque eu usava um equipamento com ferramentas no trabalho que eu não tinha disponível em casa, além de uma conexão melhor de internet entre outras vantagens. Eu tinha horário certo pra entrar e pra sair e inclusive eu dividia o computador com pessoas em outros turnos.

Eu me mudei para Campinas para fazer faculdade e saí desse emprego de programadora, quando eu voltei ao mercado de trabalho eu voltei do jeito que eu achei que dava. O curso era integral mas a grade tinha muitas janelas livres, eu me sentia muito incomodada de ficar “à toa” em diversas partes do meu dia e fui pegando trabalhos freelancers para preencher essas horas livres.

E: Como uma programadora ASP decide ser Jornalista?

J: Eu sempre gostei de jornalismo, o motivo pelo qual eu fui aprender informática é porque eu queria aprender a fazer sites, era basicamente isso e foi a última coisa que eu aprendi no técnico. Quando eles começaram a ensinar isso eu já tinha aprendido HTML em alguns livros sozinha.

“Ninguém vai me enganar com meia dúzia de linhas de código falando que é algo muito complexo.”

Eu queria contar histórias, minha idéia era fazer jornalismo cultural, mas eu acabei me enveredando pelo jornalismo de tecnologia porque eu tinha uma base técnica muito boa e eu tinha uma vontade muito grande de ajudar a esclarecer as pessoas, eu sentia que as pessoas escreviam para elas mesmas e não para esse público que precisava aprender. E aí meu papel acabou se tornando de “tradução de tecnologia.

Eu fiz graduação em Estudos Literários mas roubei várias matérias do curso de Comunicação Social e depois fiz uma pós-graduação em Jornalismo Científico.

Na época dessa pós graduação inclusive eu comecei a provocar os meus colegas:

“Vocês escrevem textos e poemas ótimos e ficam enfiando isso em cadernos escondendo isso do mundo, ninguém tá vendo o que vocês estão fazendo”

Ainda durante a graduação eu criei um blog chamado Ambidestria e com o tempo fui convencendo colegas a participar, a idéia era que cada um escrevesse pelo menos 1 vez por mês. Conseguimos tocar o projeto por 2 anos mas acabou ficando muito complicado mantê-lo na época do curso, porque entre estudar pra prova e colaborar com um projeto voluntário, estudar pra prova ganha. Mas foi bacana porque depois disso vários desses colegas acabaram criando projetos solo.

jacquelinee_no_palco

E: Você experimentou formas alternativas de remuneração do trabalho de produção de conteúdo como um ebook e uma newsletter paga, como esses projetos surgiram e que tipo de retorno eles estão lhe dando?

J: O ebook surgiu de uma iniciativa com o Ishida, um colega da UNICAMP, ele criou a Atlas Media Lab e me convidou para dar um curso de Mídias Sociais para Jornalistas. Foi uma ótima oportunidade para ensinar o que eu havia aprendido. Durante o tempo que fiquei lecionando eu percebi que as pessoas queriam um material de apoio, mas muito do que eu usava no curso era da minha experiência com os veículos que eu trabalhava e não estavam organizados em um livro.

Demorou 4 meses pro livro ficar pronto, ele não me rendeu nenhuma fortuna, mas foi uma ótima experiência para formatar o meu conhecimento de forma estruturada em capítulos numa linguagem que não fosse entediante para as pessoas efetivamente lerem e aprenderem sozinhas.

A newsletter (Interwebzbr) é uma experiência que eu ainda estou vivendo, não faz nem 6 meses que eu comecei, então é um pouco mais difícil falar sobre os resultados. Eu estou adotando o mantra do Mark Zuckerberg: ‘Move Fast and Break Things’. Então eu não estou esperando muito tempo pra saber se vai dar certo ou não, se eu acho que está meio errado eu vou lá e mudo, já que é um projeto solo e eu não preciso pedir autorização pra ninguém.

A idéia começou depois de uma viagem que eu fiz pra San Francisco onde encontrei o João Pedro Motta e ele me perguntou: “Jacq, porque você não faz uma newsletter? Eu leria uma newsletter com essas coisas que você fica publicando no Facebook, inclusive eu pagaria pra receber uma newsletter dessas”.

Eu já tinha ouvido falar do Patreon (ferramenta utilizada para monetizar a newsletter) mas nunca tinha realmente fuçado e usado a plataforma. Pra mim foi uma experiência meio de early adopter de ir lá, entender como o negócio funciona, e começar a pensar no que eu vou entregar para as pessoas. A plataforma do Patreon exige que você pense no que você vai entregar para seus patrocinadores e nas suas metas.

Quando voltei pro Brasil eu comecei a comentar com as pessoas e comecei a achar que o projeto não ia dar certo. Quando eu contava lá fora as pessoas estavam empolgadas e aqui muita gente estava me desencorajando: “Você acha que as pessoas vão pagar US$ 2,00 para receber um e-mail?”.

Apesar das dúvidas eu acabei lançando. Afinal de contas no pior cenário eu acabaria fazendo um post explicando “Como eu dei errado no Patreon” 🙂

Faz algumas semanas que eu decidi oferecer a newsletter gratuitamente e tornei o pagamento facultativo. Fiz uma pesquisa com os atuais assinantes e a maioria me respondeu que continuaria pagando mesmo assim. Eu queria que mais pessoas participassem do projeto e essa mudança funcionou muito bem nesse sentido, consegui mais assinantes gratuitos e alguns desses se tornaram assinantes pagos porque decidiram apoiar o projeto financeiramente.

E: Que recado você gostaria de deixar para a próxima geração de jornalistas e produtores de conteúdo?

J: Produzir e editar conteúdo vai ser cada vez mais importante porque existe muito conteúdo. E nesse universo com tanto conteúdo as pessoas vão precisar de alguém que as guie. Então estudar jornalismo por exemplo não vai ser um desperdício, mas eu não recomendaria que fosse a primeira faculdade de ninguém.

Você não precisa de uma faculdade de jornalismo para escrever bem. Você precisa de uma faculdade sobre algo que te interesse. Você quer escrever sobre Economia? Faça uma faculdade de economia. Você quer falar sobre política? Faça Ciências Sociais. Assim você pode escrever com mais propriedade e não ser um generalista.

O jornalismo está passando pelo que a indústria fonográfica passou quando surgiu o MP3. Alguém chegou, chacoalhou seu mundo e disse que não vai te pagar do jeito que você estava esperando antes. E ninguém sabe ainda qual é o melhor jeito. Até surgir para o jornalismo algo similar ao que o Spotify fez pelo mundo da música vai demorar algum tempo.

Esses novos comunicadores tem que aprender a lidar com esse período de turbulência. Seja resiliente, não vai ser fácil trabalhar com conteúdo, você está trabalhando num momento em que você não sabe como vai ganhar dinheiro, você não sabe para quem vai trabalhar, mas o que eu sei é que vai ter gente interessada no seu trabalho, porque não é todo mundo que sabe escrever bem.

1 Comentário

  1. bramask

    Interessante… eu acho que não sei escrever bem, mas meu blog tem recebidos bastante visitas… vai entender… rsrs

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